O professor universitário de filosofia na Universidade Maputo (UniMaputo), José Castiano, considera que o modelo de ensino à distância no contexto da pandemia do novo Coronavírus não tem sido eficaz porque os estabelecimentos de ensino, do primário ao superior, não dispõem de equipamento tenológico para que os estudantes e professores aprendam sem constrangimentos. Em entrevista à Stv, na qual aborda outros assuntos como o Desarmamento, a Desmobilização e Reintegração (DDR) dos guerrilheiros da Renamo, José Castiano aponta algumas saídas.
O Presidente da República anunciou a suspensão de aulas, com efeito a partir de 23 de Março, e desde então várias instituições de ensino introduziram o ensino à distância. Considera eficaz este modelo de ensino?
A pergunta que me faz leva-me à questão das consequências da COVID-19 na educação. Primeiro quando foi anunciada a suspensão de aulas nas universidades e escolas foi um choque porque nós não esperávamos interromper as aulas desta maneira. As medidas que foram tomadas em relação ao ensino à distância, eu penso que não são eficazes. Há estudos que nós conduzimos na UP, e sei também pela [Universidade] Eduardo Mondlane, em média só 30% de estudantes é que acompanham essas aulas de uma forma mais eficaz. Mesmo aqueles que acompanham, o fazem por via do WhatsApp e outras redes sociais, e não exactamente com os programas institucionais que nós temos (…). Portanto, a ter que ser eficaz, um dos grandes investimentos que se deve fazer em Moçambique é em termos financeiros no apetrechamento das universidades e das escolas em geral com meios materiais necessários para entrar na era digital. Esse apetrechamento devia obedecer a dois níveis, um de aumento da conectividade: o raio de abrangência. Fala-se agora de inclusão digital dos estudantes. Tem que se comprar mesmo tablets e computadores, através dos quais eles podem acessar aos materiais e acessar aos professores de forma remota. Apetrechar as instituições com os services, banda larga e os professores também. Voltando à sua pergunta, eu penso que é o caminho, mas ainda não está a ser eficaz.
Considerando que não está a ser eficaz, mas a tecnologia é, inevitavelmente, o caminho e não é apenas o futuro, é agora o presente e é cada vez mais incontornável o seu uso pelas instituições de ensino, que lições se pode tirar deste processo de ensino à distância até agora implementado no país?
A grande lição é que temos que investir muito no professor, porque as máquinas em si não ensinam. As máquinas são um meio para nós chegarmos ao conhecimento. Mas o papel do professor é preponderante. Mas também no professor tem que se evitar que ele seja aquele que carrega no seu bolso essa revolução tecnológica. Isto é, que se olhar para formas de apoiar para que quando tiver que fazer trabalho remoto, a partir de casa ou da instituição, ele não use os seus megabytes e o pouco salário que tem. Que tenha o apoio social para aguentar essa revolução. O treinamento dos professores deve que ser imediato e o apoio a eles para quem façam a nova missão com toda a folga financeira necessária.
Para além do investimento nos professores, considerando que a pesquisa efectuada aponta para 30% do universo dos alunos com uso eficaz das tecnologias para o ensino e aprendizagem, como fazer uso desta tecnologia sem que ela seja um factor de desigualdades sociais?
Ela sempre há-de ser, pelo menos por algum tempo em Moçambique. Mas podemos melhorar este efeito social negativo e para as classes mais desfavorecidas. Como eu disse antes, a única forma de fazer isso é mesmo um investimento massivo na classe estudantil, principalmente nos que são mais desfavorecidos. Mas também é estendermos para as áreas mais rurais do país. Eu não gostaria de parar por aí em relação aos efeitos do Coronavírus na educação. Há um ponto que eu considero mais fundamental: é que tipo de educação vai ser exigida daqui para frente. Para além da educação ética, da educação patriótica e da educação para convivência que nós fazemos agora questão de sublinhar, temos que investir muito na educação para a natureza. Ou seja, ensinar aos alunos ainda em idade tenra a observar a natureza e a ter noção das ciências naturais, porque essa é a base para o convívio com outros vírus que hão-de vir. Esse [o novo Coronavírus] não é o último. Em Moçambique, o sistema de educação não está ainda muito concentrado na educação para a natureza.
Como é que se consegue essa transversalidade do ensino com enfoque para a natureza?
Primeiro é com as ciências naturais porque elas ensinam a criança a observar o meio ambiente. Por acaso este é o tempo das tecnologias e elas nascem a partir desse hábito de observar com muita acutilância o meio ambiente, assim como com o hábito que é adquirido com as ciências de medir com precisão as coisas e com o hábito de pesar todos os fenómenos naturais e os objectos. Isso é que depois cresce para uma cidadania mais iluminada e precisa. E nós estamos a desleixar muito. O Coronavírus veio nos chamar atenção como educadores, que matérias como a biologia, a física, a química e a matemática são muito importantes para uma conivência sã com a natureza. Conhecer os animais, as plantas e saber observar o seu comportamento, então imaginar um vírus, que é invisível, fica possível para as pessoas. Agora muitas pessoas não imaginam o que é um vírus por falta dessa educação natural.
Falou da formação dos professores e desta componente da valorização da natureza ainda na tenra idade, mas também há questões curriculares associadas à tecnologia que devem ser reflectidas nestes contexto para melhor percurso nesta nova era.
Voltando a definição mais básica do que é um currículo é a organização dos conteúdos que a pessoa vai aprender a partir da idade e das disciplinas. [Neste contexto], nós temos que reorganizar o nosso currículo de forma a dosear a matéria na fase pós-emergência. Não pós-Coronavírus. São coisas diferentes. Pós-emergência teremos que dosear a matéria de forma a recuperar o tempo perdido e se exige uma reorganização curricular. Por exemplo, o que é que vai acontecer com as práticas profissionalizantes, com as aulas laboratoriais e teóricas.
Não me refiro ao currículo do ponto de vista do que virá a ser este ano lectivo. Refiro-me às perspectivas para o futuro.
Perspectivas para o futuro, falando do currículo de uma forma mais ampla, volto a dizer: nós temos que organizar o currículo. Ou seja, quilo que o aluno venha a aprender, seja no ensino primário,

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